Aula de balé para crianças: quando começar e as particularidades do ensino
  • Aula de balé | FOTO: Pixabay
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A idade ideal para iniciar a prática da modalidade, a metodologia apropriada e os benefícios da dança são alguns dos aspectos analisados pelos pais que se deparam com o interesse dos pequenos pela dança desde cedo

Vestir a roupinha característica do balé, colocar a sapatilha e tentar rodopiar na ponta do pé. Para muitas crianças, a fascinação e o encantamento pelo balé surge desde cedo. A dança, além de ser divertida para os pequenos, pode trazer benefícios físicos e emocionais. Por outro lado, o ensino do balé para crianças requer cuidados por parte dos professores e acompanhamento dos pais, que geralmente se deparam com dúvidas como qual seria a idade ideal para a criança começar a praticar o balé.

Segundo a professora de licenciatura em dança da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Márcia Virgínia, por volta dos sete anos de idade a criança inicia uma fase de prontidão para o aprendizado de conteúdos relativos ao mundo, entre eles, os que se referem à arte, e no caso da dança, uma arte corporal.  Antes disso, no primeiro setênio, a criança está desenvolvendo o corpo físico. Assim, a atuação do educador precisa auxiliar nesse desenvolvimento, em especial no amadurecimento dos órgãos, do sistema nervoso, da percepção sensorial e da motricidade.

Até os sete anos, toda a vitalidade da criança deve estar disponível para tal, estando aí a importância de não antecipar aspectos que gastam a vitalidade em atividades que exigem memorização, interpretação e/ou raciocínio lógico. “Ainda que as atividades sejam relativas ao corpo físico, elas também podem ter um foco na cognição e levar a padrões rígidos de corporalidade, sem levar em consideração a importância do brincar espontâneo no desenvolvimento infantil. Considerando que o ensino tradicional de balé exige muitos requisitos, uma criança que é introduzida muito cedo pode facilmente se desinteressar, especialmente pelo fato de ter sido antecipada e porque não dizer ‘adultizada’ por métodos bastante codificados”, analisa Márcia.

Cada vez mais cedo as crianças estão iniciando as atividades nas academias de dança. Aula de balé para pequenos de três ou quatro anos de idade já é realidade. São as chamadas baby class, que surgiram junto com alguns questionamentos por parte de profissionais. “Em alguns casos, as crianças com até três anos são expostas a diversas atividades de movimento que são muito estimulantes, que não promovem o descanso, o sono ou o relaxamento, nem tão pouco a fantasia. São maneiras de acelerar as fases naturais do seu desenvolvimento. O movimento do corpo é o brinquedo mais importante da criança e cabe ao adulto apenas observar, sem impor modelos de corpo e de movimento”, afirma a professora Márcia.

E é pensando no entendimento do corpo através do lúdico e da descoberta pessoal que a bailarina e professora de balé clássico Isabela Severi  dá aulas no baby class, na Escola da Criart Cia. de Dança (Olinda, PE). “É por esse caminho que procuro levar a criança a entender o próprio corpo antes de apenas executar um movimento. Acredito que aos sete anos a criança tenha o entendimento para participar de uma aula tradicional de balé, mas nada que a impeça de aos três ou quatro anos iniciar uma aula voltada para o desenvolvimento de seus padrões corporais, de sua motricidade, de sua expressão. Uma aula que desperte seus sentidos através de estímulos, que estimule sua criatividade através da ludicidade  e seus movimentos, através de suas descobertas. Com certeza isso ajudará, e muito, em seu crescimento e desenvolvimento”, esclarece Isabela.

O reconhecimento do corpo no ensino do balé é um ponto ressaltado também por professora e coreógrafa de balé clássico Fátima Guimarães, idealizadora do Espaço Endança (Recife, PE). Começando a trabalhar com crianças a partir dos cinco anos, o ensino no espaço é todo voltado para o desenvolvimento social, afetivo e estrutural para o universo da dança. “Nas primeiras aulas, o aluno tem que reconhecer seu corpo e seu espaço. Para alcançar um resultado com crianças é preciso trabalhar com maestria o lúdico para criar estratégias e inserir o que seriam os objetivos na aula e no conteúdo programático”, afirma Fátima.

METODOLOGIA

Sobre o método, a importância do brincar é ressaltada pela professora Márcia Virgínia. “Não devemos pensar em prender a atenção das crianças, mas em libertá-las e apenas no brincar livre elas têm liberdade. Como hoje em dia as crianças não brincam mais nas rodas cantadas comunitárias, cabe ao professor de dança fazer este papel. Desse modo, as atividades dirigidas devem conter os elementos da fantasia e da imaginação infantil”, afirma.

Nas aulas de baby class, a professora Isabela Severi utiliza esses elementos com os pequenos alunos. “Em minhas aulas gosto de trabalhar com materiais: bolinhas, lencinhos, desenhos, cordas, imagens, tudo o que estimule o lado sensitivo do corpo”, explica. Para as profissionais da área, o papel do professor na introdução da dança na vida das crianças é tido como fundamental e deve ser cuidadosamente executado. “Devemos ter cada vez mais consciência da responsabilidade que temos ao trabalhar com crianças. Primeiro de tudo, o professor deve estar apto. Trabalhar com criança requer conhecimento, pesquisa e vivência”, afirma Fátima Guimarães.

Já segundo a professora de licenciatura em dança Márcia Virgínia, o respeito ao ser humano deve ser umas das prioridades. “Felizmente cada vez mais tem aparecido novos professores preocupados com essa questão ao pensar no ensino de dança como sendo algo que se constitui não apenas de conteúdos, como os repertórios de movimento, por exemplo, mas também de algo que respeite o ser humano em formação”, destaca.

Foi justamente assim que a professora Isabela Severi descobriu seu caminho no ensino. “Em um certo momento da minha trajetória como professora, senti que precisava ir mais fundo. Precisava entender não apenas sobre os movimentos, mas sobre o caminho percorrido pelo corpo para executar um movimento. Entendi então que, muito além de estudar o método, eu precisava estudar o corpo. E principalmente, entender que cada corpo é um só”.

“Prezar pela individualidade de cada aluno, respeitando seus limites e incentivando seus sonhos. Já se foi o tempo em que balé é repetição de gesto, fazer apenas por fazer.  Tudo tem um sentido. Além disso, cada corpo tem um limite e nenhum é melhor ou pior do que o outro. A dança é para todos. Nas aulas, tudo isso deve ser levado em consideração. A dança é uma forma de se descobrir. E ir se descobrindo desde cedo só pode trazer benefícios”, finaliza Isabela.




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Fabiana Constantino

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